Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor
Do Pauta On
05/12/2025
No próximo 13 de dezembro, celebramos o Dia da Pessoa com Deficiência Visual. Apesar de dizer “celebramos”, quando se vive no Brasil a realidade é única, já que não se tem muito o que celebrar.
Vivemos num país onde apesar de avanços, ainda existe muito que se deva avançar no quesito acessibilidade e cuidado para com as pessoas deficientes visuais.
Aos dados
O Brasil possui 6,5 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência visual.
Deste total, 650 mil são pessoas que tem a deficiência visual total, portanto que não enxergam nada.
30% destas, sofrem algum tipo de abuso familiar, que pode ser físico, psicológico ou financeiro. Dado que tratei recentemente num artigo publicado na Revista Orcon+, no Portal Pauta On e no Jornal RS Connect.
Nunca canso de falar esses dados, porque eles espantam e deveriam mesmo espantar. Uma sociedade que se diga justa não deveria achar tolerável, um universo de 650 mil pessoas com deficiência visual total, ter 30% em condições de vulnerabilidade por abuso familiar.
E o que nossas autoridades fazem em relação a isso? Nada!
Isso mesmo que você leu. Não existem ações concretas que possam ajudar pessoas nessas situações a deixarem este triste e lamentável quadro.
E as entidades assistenciais? Em ampla maioria preferem se refutar a responsabilidade de ajudar, se escondendo por trás do que é bonito mostrar, não da realidade.
Preferem chamar o jornal para fotografar o atleta jogando Goalball.
Preferem mostrar que o deficiente visual pode usar um computador.
O que claro, deve ser sim mostrado. Mas esquecem do essencial, a assistência social e humanitária a essas pessoas.
Por muitas vezes, dentro dessas entidades, existem pessoas que convivem com esses abusos.
Não denunciam por medo, ou por acreditar que não dará em nada, dado a experiências anteriores fracassadas.
O Brasil não tem muito o que celebrar neste 13 de dezembro, mas deveria.
Se as políticas públicas estivessem voltadas realmente a inclusão, não a exclusão.
Hoje o Brasil discute, acabar com a Educação Especial, em uma proposta que proíbe o funcionamento de Escolas Especiais.
Se esquecendo que nem todos os deficientes, de qualquer seja a sua deficiência, conseguem acompanhar um ensino regular.
Incluir não é por a pessoa em sala de aula, deixar ela lá e mostrar para a sociedade “O deficiente está na escola.”
Incluir, é dar a este deficiente, oportunidade de aprendizado para que ele, dentro de suas limitações, se supere e no futuro, consiga entrar no mercado de trabalho, não dependa de benefícios do governo e possa viver a sua vida.
Mas, ao afastar as escolas especiais, muitas vezes se não na maioria, o governo está excluindo o deficiente e empurrando um problema crônico para baixo do tapete.
É fato, o ensino regular não está preparado para lhe dar com deficientes, menos ainda os visuais.
Não há professores que sabem ler Braille, ou ensinar o método de forma suficiente.
Nas escolas não existem professores que saibam lhe dar com os programas de tecnologia assistiva, e ensinar o deficiente visual, a usar um Dosvox, NVDA, ou qualquer outro leitor de tela ou programa acessível.
Percebam, este artigo nos leva a fazer uma análise profunda, que temos que cobrar e não celebrar, neste 13 de dezembro, mais do que nunca.
Estamos vigilantes e observantes aos retrocessos das políticas as pessoas com deficiência visual.
Com olhos abertos e denunciando essencialmente aquilo que precisa ser denunciado, sem medo de expor a verdade de cada fato.
Enquanto Jornalistas é nosso papel. Enquanto cidadãos, é nossa necessidade.
Enquanto pessoa com deficiência, minha obrigação, tocar em cada um desses pontos.
E o que fazer para resolver essas temáticas?
Acabar com o fim de escolas especializadas e criar um verdadeiro projeto de Educação Inclusiva, onde o deficiente possa ter condições de acompanhar o ensino regular, mas sem perder o especial. Um é complemento ao outro, não excludente.
Criar projetos de assistência que funcionem, para acolher deficientes visuais que precisam de moradia digna, longe do ambiente familiar tóxico que muitos estão inseridos.
Ampliar a fiscalização com as autoridades competentes, para evitar e coibir de vez, as práticas de abuso familiar cometidas em larga escala no Brasil.
Dar voz a quem não pode falar. Ouvir e acreditar na palavra do deficiente visual, quando ele conta ou denuncia uma situação de abuso vivenciada em casa.
Não importa como sua família age na frente da sociedade, investigar os fatos e oferecer meios dessa pessoa sair dessa situação, de forma célere e eficaz.
Ampliar ações de acessibilidade, lembrando que fazer algo acessível não é apenas por piso tátil nos ambientes, ou criar um site com recursos em Libras.
É muito mais. É ter normas que atendam a cada público, sabendo no que se deve de fato empregar e o que deve de fato ter em uma página, para ser acessível de verdade.
Trabalhar a diminuição de imagens, deixar o ambiente leve e intuitivo para facilitar navegabilidade dos leitores de telas.
Ampliar o acesso de deficientes visuais a tecnologias assistivas, equipamentos para estudo e trabalho.
São algumas das muitas políticas de inclusão que podemos pedir e adotar no Brasil, e que poderiam nos levar a um grau mais na nossa evolução.
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Editor Responsável da Agencia Orcon Press e do Jornal RS Connect.
MTB: 89344 / SP.
E-mail: guilherme@orconpress.com.br
